terça-feira, 19 de setembro de 2017

Conservadorismo e Liberalismo: Uma reposta ao meu amigo Carlos Goes

Carlos Góes é um jovem e competente pesquisador. Tive o prazer de ler alguns de seus trabalhos, todos excelentes. Góes também faz parte da EXCELENTE equipe do Instituto Mercado Popular. Recomendo a leitura, você pode até discordar de alguns de seus textos, mas todos valem a reflexão. Com o texto "Não se engane: o conservadorismo é antagônico ao liberalismo" não é diferente, você pode discordar do texto, mas vale a leitura. Contudo, acho que aqui cabe uma resposta. O texto de Góes segue entre aspas, e minha resposta na sequência.

"No senso comum brasileiro é normal confundir liberais com conservadores. Nada poderia ser mais distante da realidade. Em termos de política objetiva, liberais e conservadores discordam radicalmente. Enquanto conservas vão falar contra as drogas e o casamento gay, liberais vão ter propostas radicais como a legalização de todas as drogas e a desestatização do casamento. Mas liberais e conservadores se antagonizam em algo mais profundo: em seus princípios".

Resposta) Parte expressiva dos conservadores não são contra a legalização das drogas, muitos questionam apenas a operacionalização disso. Além disso, conservadores preferem mudanças graduais. Quanto ao casamento gay, a maioria dos conservadores é contrário ao uso do termo "casamento" nada tendo contra a união homoafetiva. Cabe ressaltar que conservadores e liberais se juntam na defesa a vida, na defesa da propriedade privada, e na defesa da responsabilização individual. Creio que temos mais semelhanças do que propriamente diferenças.

"O foco fundamental dos conservadores é na tradição, nos costumes e na continuidade. Eles partem da ideia de que as gerações passadas, presente e futuras se ligam através de um contínuo histórico de uma “ordem moral”. Por isso, esse elo intrageracional deteria uma superioridade moral que deveria ser preservada. Eles dizem que não são teorias metafísicas que justificariam suas escolhas – mas a “experiência”. As mudanças, embora necessárias “para a nossa sobrevivência”, são vistas como um mal inevitável. O ode é ao status quo".

Resposta) Sim, tradição e costumes são importantes para conservadores. Sim, conservadores gostam da ideia de uma ligação entre gerações passadas, presentes, e futuras. Você pode até usar o termo "ordem moral", mas o significado disso é de transcendência. Tal vínculo dá um sentido importante a nossa vida, nos fortalece diante de um futuro desconhecido. Conservadores não são contrários a mudança. Contudo, o conservador compreende a limitação humana. Se o homem é limitado é óbvio que nossos projetos serão igualmente limitados e suscetíveis a erro. Logo, o conservador sugere mudanças lentas e graduais na sociedade. Assim, os custos associados a erros seriam baixos e facilmente corrigíveis. Por outro lado, a história demonstrou o custo em vidas humanas das revoluções. Um conservador sabe que sociedades complexas não podem sofrer alterações profundas e rápidas sem gerar conflitos internos. São tais conflitos, e a carnificina associada a eles, que o conservador tenta evitar ao sugerir mudanças graduais.

"Antes de mais nada, é importante lembrar que o liberalismo surgiu em oposição àqueles que queriam conservar a velha ordem. O bom e velho Adão Smith falava em favor do livre comércio e pela abolição das leis protecionistas do trigo e milho numa Inglaterra em que tanto o mercantilismo quanto essas leis eram a tradição e estavam lá desde sempre".

Resposta) Sim, isso está correto. Mas desde então o liberalismo econômico faz parte de boa parte dos conservadores. Aqui é importante ressaltar que, ao contrário do liberalismo, o conservadorismo não é uma ideologia. O conservador da Inglaterra no século XX é diferente do conservador brasileiro do século XXI. O conservadorismo varia de local para local, e de época para época. Por exemplo, Edmund Burke, um dos grandes nomes associados ao conservadorismo, era um defensor do livre comércio. A essência do conservadorismo não é o medo da mudança, e nem a restrição ao comércio, mas sim a constatação (também feita por liberais) da limitação da capacidade humana. Daí decorre a defesa de mudanças sociais graduais, e a limitação do poder do Estado.

"Um estranho vício dos conservadores é não perceber o quanto a economia de mercado foi e é revolucionária – e quanto ela abalou as estruturas da sociedade tradicional. A economia de mercado acabou com as posições tradicionais – a ideia de que você sempre seguiria a profissão de seus pais – e libertou as classes mais desfavorecidas para experimentar e tentar buscar uma vida melhor".

Resposta) Sim, é verdade que a economia de mercado revolucionou a sociedade trazendo uma prosperidade nunca vista antes. Mas é igualmente verdade que a maioria dos conservadores apoia a economia de mercado. Não são os conservadores o inimigo aqui, afinal a própria índole do conservador pede por um Estado pequeno. Ronald Reagan, Margareth Thatcher, e Winston Churchill estão entre os maiores conservadores do século passado. Não me parece que eram inimigos da economia de mercado.

"As desigualdades objetivas e de status (embora não as desigualdades de renda) foram significativamente reduzidas com a economia de mercado. Até um Rei passou a estar debaixo da lei. Como dizia Mises, a diferença entre um pobre e um rico numa sociedade pré-economia de mercado era a diferença entre possuir ou não possuir sapatos. A diferença entre um pobre e um rico na sociedade de mercado é entre ter um carrão e ter um fusca".

Resposta) Novamente isso é verdade, mas novamente é verdade que conservadores prezam pela economia de mercado. 

"Isso vai contra toda a tradição. Isso vai contra tudo o que sempre esteve aí. A economia de mercado é uma revolta contra o estado natural da humanidade. É uma boa revolta, porque o estado natural da humanidade sempre foi a pobreza".

Resposta) A economia de mercado foi contra a tradição há mais de 200 anos atrás. Desde então está incorporada na tradição do mundo ocidental. Novamente repito: a economia de mercado, a propriedade privada, e o respeito a vida, são partes integrantes do conservadorismo.

"Embora os conservadores achem que não se justificam em “fórmula mágica feita por um estudioso”, eles não percebem que a derivação de legitimidade dos costumes é em si uma teoria racionalizada. Os costumes, por si só, não justificam nada. É preciso um corpo teórico para derivar legitimidade moral dos costumes".

Resposta) Aqui discordo de meu amigo Góes. A tradição é resultado direto da ordem espontânea (que aliás é corretamente apreciada por meus amigos liberais). O próprio sistema legal inglês, baseado na tradição, pode ser citado como exemplo de ordem espontânea. Sobre costumes alguns conservadores diriam que os costumes foram a resposta a problemas passados dos quais a sociedade já se esqueceu.

"Os costumes podem ser bons ou ruins. Racionais ou irracionais. Os costumes já impuseram a dominação e propriedade masculina sobre as mulheres; a escravidão de negros a brancos; a divisão de pessoas em classes imóveis de aprendizes e profissões; a impossibilidade de se ter mobilidade religiosa; e a ainda persistente lealdade irracional a um desenho em um mapa e uma bandeira – e tantas outras arbitrariedades. Para um liberal, um costume que infringe a justiça e a liberdade deve ser mudado".

Resposta) Certamente isso ocorreu. Mas a pergunta relevante aqui é qual seria a opção? Apenas para dar um exemplo: a escravidão surgiu para que tribos conquistadas não fossem massacradas por seus conquistadores, acabar com o instituto da escravidão poderia ter jogado a sociedade num genocídio. Claro que a partir de determinado momento o instituto da escravidão passou a ser anacrônico, e certamente é motivo de vergonha para os que o defenderam. Mas vamos fazer uma pergunta difícil: qual a melhor solução para acabar com a escravidão: a solução brasileira (conservadora) ou a solução americana (guerra civil)? Note que nenhuma das alternativas é isenta de custos. Cabe ressaltar também que a escravidão não terminou por motivos econômicos, terminou por motivos morais (valor importante para conservadores, mas que nem sempre encontra apoio entre liberais). Mas vamos nos ater a parte final do argumento: Góes está a sugerir que um liberal deve ser contra o conceito de país. Na realidade atual, será que abrir as fronteiras é realmente a melhor solução? Para Góes sim, para mim não. Independente de sua resposta, a verdade é que não existem soluções indolores aqui, e esse é meu ponto. Claro que ideias conservadoras geraram injustiças no passado. Mas é igualmente verdade que foi graças ao conservadorismo que outras soluções mais devastadoras foram afastadas. A ideia conservadora de mudanças lentas e graduais é uma potente arma contra paixões momentâneas que prometem maravilhas no futuro em troca de sacrifícios no presente. Afinal, um conservador sabe que o paraíso não é terrestre. Sabe que nenhum caminho é isento de custos, e sacrificar o presente conhecido em nome de uma promessa de futuro melhor é uma aposta que geralmente não se paga. A escolha conservadora é frequentemente entre o mal menor.

"Outro erro da maioria dos conservadores é não perceber que as instituições sociais estão em permanente revolução, em um processo evolutivo e dinâmico. Elas mudam o tempo todo rumo aos novos desígnios que a sociedade lhes dá. Eles acham que o simples fato delas existirem (o status quo) é que o lhes garante legitimidade, quando a legitimidade deriva precisamente da utilidade social delas. É a sociedade que escolhe o que é útil e o que não é útil, através de suas trocas e do encontro de suas preferências subjetivas".

Resposta) Conservadores gostam de instituições pois enxergam nelas o resultado de uma ordem espontânea. Conservadores não são contra mudanças, são  apenas contra mudanças bruscas e de grande magnitude. Afinal, tais mudanças costumam ter um efeito disruptivo sobre a sociedade.

"Quando algo deixa de ser útil, a ordem é contestada e alternativas são providas. A contestação da ordem faz parte do processo de mudança social necessária a uma sociedade inovadora. A mudança derivada da contestação da ordem não vem por definição “acompanhada de prudência”. A mudança é uma luta constante contra o status quo".

Resposta) A referência ao conservadorismo aqui reside na palavra "prudência". Sim, o conservador é uma pessoa prudente. Sabe das limitações humanas, logo é contrário a mudanças abruptas e profundas na sociedade. Em seu lugar, um conservador prefere mudanças lentas e graduais. Claro que muitas vezes a sociedade tem urgência nas mudanças. Contudo, mudanças abruptas e profundas são características de um regime revolucionário que dificilmente é compatível com a ordem democrática. Numa democracia mudanças repentinas e profundas são impossíveis de serem realizadas.

"Contestação, também, faz parte essencial da preservação da liberdade individual. Como conservadores abraçam uma visão comunitarista de mundo, eles acabam ignorando o valor intrínseco do indivíduo, relegando-o a mera engrenagem na máquina da tradição. Para o liberal, o importante é a preservação da capacidade de expressão das individualidades – inclusive quando, para isso, se torna essencial subverter a ordem vigente. Em diversas situações, o que um conservador chamaria de “prudência” em favor das tradições prevalentes um liberal chamaria de “tirania da maioria".

Resposta) Não creio que um conservador ignore o valor intrínseco de um indivíduo, a proteção a vida abraçada pelos conservadores é um exemplo disso. Conservadores dificilmente são utilitaristas, são os utilitaristas que costumam fazer tal conta e ignoram o valor intrínseco da vida humana. A tirania da maioria é uma preocupação constante dos conservadores. Afinal, conservadores não gostam de mudanças profundas e abruptas que geralmente são prometidas por políticos populistas, e que costumam ser abraçadas pela maioria.

"São nas tentativas de mudar o status quo que se molda o futuro. A gente não sabe qual vai ser o futuro, nem a velocidade das mudanças. Ele é fruto da livre experimentação social e da competição do mercado de ideias. Ao conservador, isso dá calafrios; ao liberal, regozijo. Para o liberal quem deve moldar o futuro são as pessoas – e não as elites presunçosas, seja de direita ou esquerda. Quem acredita em mudança  derivada de ordem espontânea, sem direcionamento nem gurus, são os liberais".

Resposta) Como argumentado antes, os conservadores dão enorme valor na tradição que são um exemplo claro de ordem espontânea. Novamente, o conservador defende sim as mudanças. Mas, como somos seres humanos falhos, defendemos mudanças lentas e graduais que possam ser facilmente revertidas caso se provem equivocadas. Não defendemos gurus, não defendemos salvadores da pátria, exatamente daí vem nosso discurso em prol da prudência.

"O liberal vê a evolução social não como fruto de superioridade moral de costumes, mas como fruto da livre experimentação e competição de ideias. Ele não se foca na estática do passado, mas na dinâmica do presente e nas potencialidades do futuro. Como escreveu brilhantemente Hayek: “antes de mais nada, os liberais devem perguntar não a que velocidade estamos avançando, nem até onde iremos, mas para onde iremos”.

Resposta) Certamente conheço o discurso de Hayek, e muitos diriam até que foi um discurso bem conservador (apesar do título ser o contrário disso). Por não possuírem uma ideologia, os conservadores estão sempre preocupados com a velocidade do processo. É melhor irmos lentamente na direção correta do que rapidamente em direção ao precipício. Claro que o melhor mesmo seria irmos rapidamente na direção correta, mas a mentalidade conservadora impede isso da mesma maneira que nos impede de corrermos para o abismo. Como disse, o conservadorismo tem sim suas falhas. As vezes torna mais lenta alguma evolução positiva, mas por esse mesmo motivo muitas outras vezes nos salva de precipícios.

"Um liberal olha para o futuro e almeja o progresso. A bem da verdade, não há nada menos conservador do que um liberal".

Resposta) Será mesmo? Acaso um conservador quando olha para o futuro almeja o retrocesso? Creio que no Brasil de hoje conservadores e liberais possuem muito mais similaridades do que diferenças.










domingo, 17 de setembro de 2017

Mais Escolas, Menos Presídios? E que tal mais Igrejas?

Existe uma falácia que muitos repetem "Prefiro construir escolas a construir cadeias". Óbvio que qualquer pessoa sensata prefere isso. O problema real não é esse, o problema é que apesar de preferirmos construir escolas, as vezes é necessário construir também presídios.

Mas o motivo desse post é outro: as pessoas que argumentam que preferem escolas a cadeias deveriam elas mesmas serem favoráveis a construção de mais igrejas. O motivo é simples: a eficiência da igreja para evitar crimes é tão defensável quanto a da escola. Isso ocorre em duas frentes:

1) é verdade que educação aumenta o custo de oportunidade da atividade criminosa, mas é igualmente verdade que educação diminui o custo de aprendizagem de atividades ilícitas. Tanto é assim que estudos teóricos colocam o efeito da educação sobre a criminalidade como AMBÍGUO. Isto é, mais educação pode aumentar ou diminuir a criminalidade dependendo dos parâmetros adotados no modelo, e dependendo do tipo de crime em questão (FAJNZYLBER, LEDERMAN, e LOAYZA, 2002). Vale ressaltar que diferentes políticas educacionais tem efeitos importantes sobre a criminalidade (LOCHNER, 2010).

2) A igreja combate QUALQUER tipo de crime, acreditar em Deus e na existência de uma punição (ou recompensa) em decorrência de seu comportamento terreno gera incentivos importantes no combate a criminalidade. Apenas para dar ao leitor uma noção de magnitude existem mais pessoas que acreditam no inferno do que no sistema legal brasileiro. Vários estudos comprovam a importância da interação social no combate a criminalidade, e entre os componentes da interação social resta óbvio que uma família bem estruturada e uma crença na justiça divina atuam positivamente no combate ao crime (MENDONÇA, LOUREIRO, e SACHSIDA, 2002).

De maneira alguma argumento que devemos construir igrejas e não escolas. Argumento apenas que o pessoal do "Mais amor por favor", ou do "Prefiro construir escolas à presídios", deveria dizer que prefere também a construção de mais igrejas.

Para que não restem dúvidas, esse é um post crítico ao pessoal que cria falsas escolhas na sociedade para aparecerem bem na foto, e bancarem os isentões. Da próxima vez que esse pessoal aparecer para bancar os bacanas cobrem deles também a construção de mais igrejas. Tenho a impressão que irão gaguejar! Óbvio que construir escolas é importante, óbvio que igrejas são importantes, mas óbvio também que é necessário construir presídios.

FAJNZYLBER, P., LEDERMAN, D., LOAYZA, N. What causes violent crime. World Bank Report, 1998.

LOCHNER, L. "Education Policy and Crime". University of Western Ontario, September, 2010.

MENDONÇA, M.; LOUREIRO, P.; SACHSIDA, A. Interação social e crimes violentos: uma análise empírica a partir dos dados do Presídio da Papuda. Estudos Econômicos, v. 32, n. 4, p. 621-641, out./dez. 2002.

sábado, 16 de setembro de 2017

Será que funcionários públicos relapsos devem ser demitidos?

Óbvio que funcionários públicos relapsos devem ser demitidos! Ser aprovado num concurso público não é sinônimo de aposentadoria, não é uma garantia eterna de emprego. Sim, maus funcionários públicos devem ser demitidos.

Infelizmente nem tudo que é óbvio é operacionalmente simples. Demitir maus funcionários públicos apesar de correto enfrenta uma dificuldade prática enorme. Em teoria é extremamente fácil separar bons e maus funcionários, mas no mundo real a dificuldade é bem maior. No setor privado, quando o patrão demite por engano um bom funcionário, ou ainda quando resolve perseguir seu empregado por motivações políticas, seu lucro diminui, é a própria empresa que paga a conta desse erro. No setor privado sempre há o lucro para disciplinar a empresa, e em última instância a própria companhia pode ir a falência em decorrência de suas más escolhas.

Já no setor público, permitir que funcionários públicos possam ser demitidos por questões políticas pode representar um ônus enorme para toda sociedade. Imagine se o PT pudesse ter demitido todos os funcionários públicos favoráveis ao impeachment, ou se resolvessem demitir os agentes públicos responsáveis pela operação Lava Jato. O que no setor privado é um problema restrito as partes (empresa e empregados), no setor público é um problema que atinge a toda sociedade.

Para complicar ainda mais a análise, vamos lembrar de um detalhe: quando um funcionário público não faz nada, dificilmente algo acontece com ele. Por outro lado, quando ele é pró-ativo, propõe coisas novas, tenta resolver problemas, toma iniciativas, entre outras coisas que seriam valorizadas no setor privado, bem no setor público isso é um problema. Isso ocorre pois ao setor privado é permitido fazer tudo que não é expressamente proibido, já no setor público só se pode fazer o que está expressamente definido em lei.

O que esse texto tentou demonstrar é que existem diferenças importantes entre o setor público e o setor privado, achar que ambos devem ser administrados da mesma forma é um erro grave. Esse é um aviso expresso a partidos políticos e candidatos que acham que a mentalidade de setor privado irá surtir os mesmos efeitos no setor público, essa ideia não irá funcionar.

De maneira alguma digo que não devemos demitir funcionários públicos relapsos. Pelo contrário, devem sim ser demitidos. Argumento apenas que existe razoável dificuldade técnica em se operacionalizar essa ideia. Mais ainda, se tal ideia for posta em prática de maneira equivocada as perdas para a sociedade serão gigantescas. Se você duvida de mim, imagine o que o PT não teria feito em seus 14 anos de governo federal se pudesse demitir quem lhe fosse contrário.

Em Defesa do Ensino Domiciliar: Eu Apoio o Homeschooling

De maneira geral o homeschooling é o ato de ensinar crianças dentro de casa e não na escola. Você pode ler mais sobre o homeschooling nesse texto publicado no Instituto Mises Brasil.

Existem vantagens e desvantagens associadas ao homeschooling. Entre as desvantagens podemos citar: a falta de interação das crianças com outros alunos do colégio, ausência de um professor qualificado, e o risco da criança não aprender o mínimo necessário. Essas críticas podem estar equivocadas, mas ao menos são justas. Outra série de críticas são pura especulação e preconceito, por exemplo, argumentar que homeschooling é usado para ensinar racismo e xenofobia as crianças. Há mais de 50 anos que crianças são educadas em colégios tradicionais, nem por isso o racismo e a xenofobia deixaram de dar o ar da graça. Xenofobia e racismo não são características do homeschooling, honestidade no debate é fundamental.

Por outro lado temos as vantagens do homeschooling: a criança receberá o conhecimento num ambiente seguro (basta olhar a violência associada a escolas brasileiras para rapidamente compreender essa vantagem), numa idade em que a criança está suscetível a influências negativas ela estará mais próxima de seus pais, e a criança pode ter um horário de estudo muito mais adequado a sua realidade específica. Outro argumento muito utilizado é que as escolas tradicionais deixaram de ser um local de aprendizado para se transformarem em centros de doutrinação que eliminam a capacidade de raciocinar dos alunos, e em seu lugar colocam uma visão de mundo específica de seus professores (muitas vezes completamente dissociadas da realidade que os cerca).

Certamente existem vantagens e desvantagens associadas tanto ao colégio tradicional quanto ao homeschooling. Contudo, existe aqui um argumento inquestionável: a esmagadora maioria dos pais ama seus filhos, a esmagadora maioria dos pais daria com prazer sua vida para salvarem a de seus filhos. Sendo assim, quando um pai ou uma mãe decidem pelo homeschooling o mais provável é o fazerem por acreditar que isso será benéfico a seus filhos. Outro detalhe, pais preguiçosos não escolhem o homeschooling. Por óbvio educar as crianças em casa dá muito mais trabalho do que enviá-las a escola.

Quando pais decidem ensinar seus filhos em casa sua vontade deve ser respeitada. Infelizmente, no Brasil de hoje, pais que optam pelo homeschooling de seus filhos podem ser criminalmente processados, isso é um completo absurdo. Todos os pais tem o direito, e o sagrado dever, de zelarem por seu bem mais precioso: seus filhos. O homeschooling é um compromisso severo que pais fazem com seus filhos. Muitas vezes o pai ou a mãe abrem mão de suas carreiras, e de seu lazer, para ensinarem seus filhos em casa. Tal sacrifício deve ser respeitado, nunca punido.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Santander, MBL, e a Liberdade de Expressão

Sejamos claros: a liberdade de expressão é um dos fundamentos de nossa sociedade. Semana passada ganhou destaque a mostra cultural do Banco Santander: Queermuseu. Nela estão expostas hóstias profanadas, imagens religiosas igualmente desrespeitadas, e quadros com os dizeres "Criança Viada" ou ainda "Criança Viada Travesti da Lambada". Vários grupos da sociedade (e não apenas grupos religiosos) protestaram contra a mostra. Entre tais grupos o protesto do Movimento Brasil Livre (MBL) recebeu bastante destaque. Depois da pressão da sociedade o Santander cancelou a mostra. Você pode ler mais sobre o episódio clicando aqui.

Alguns fatos me chamaram a atenção:

1) A imprensa e o beautiful people tentaram dar a entender que o protesto era coisa de quem não respeitava a liberdade de expressão. Isso é FALSO! A liberdade de expressão vale para ambos os lados. Vale para quem quer expor a arte e vale igualmente para quem quer criticá-la. Ou será que agora querem calar quem discorda? Será que querem nos tirar o direito de protestar? Repito: a liberdade de expressão pode ser invocada tanto por quem defende o direito de expor sua obra como por aqueles que defendem o direito de criticar tal obra.

2) Parte importante do protesto referiu-se ao cancelamento de contas no Banco Santander. Querem protesto mais liberal do que esse? Quem discorda da política cultural do Santander tem todo direito de trocar de banco. Aliás essa é a uma das principais maneiras de se protestar numa economia de mercado: se discordo do fornecedor tenho liberdade de troca-lo.

3) Absurdo quem destruiu propriedade privada. Inadmissível que pessoas destruam aquilo de que discordem. Isso não é aceitável e é contrário a qualquer princípio liberal ou conservador (afinal ambos dão grande destaque a propriedade privada).

4) Imagine que em vez de "Criança Viada" o quadro se chamasse "Negro Fedido". Será que esse pessoal do beautiful people ainda estaria apoiando a liberdade de expressão e a mostra do Santander? De minha parte digo que "Criança Viada" e "Negro Fedido" são nomes de extremo mau gosto, mas respeito a liberdade de expressão. Sou consistente, mas será que podemos dizer o mesmo daqueles que boicotaram uma mostra de arte apenas porque o filme do Olavo de Carvalho lá seria exibido?

5) Por que o boicote liderado por alguns intelectuais ao filme de Olavo de Carvalho não causou revolta na grande imprensa e no beautiful people?

6) O MBL protestou contra a mostra do Santander. Concordo com a postura do MBL, também achei a mostra ofensiva. Protestar é meu direito. Protestar faz parte da liberdade de expressão. O que não entendi foi algumas pessoas querendo dizer que a posição do MBL não era liberal. Ora os protestos contra Dilma não eram legítimos? Será que não era liberal protestar contra o PT? Óbvio que o protesto é uma manifestação liberal, e não há nada de errado no MBL ter se posicionado dessa maneira. ERRADO é exigir censura pelo Estado, mas em nenhum momento o MBL exigiu isso.

A verdade é que boa parte da população está cansada do duplipensar, da linguagem dupla, dos dois pesos e duas medidas que são adotados recursivamente por parte da imprensa e de alguns intelectuais. Exigem liberdade plena para eles, mas querem a todo momento cercear a nossa.



domingo, 10 de setembro de 2017

O que é a Terceira Via? Ela é possível?

O termo "terceira via" geralmente se refere a uma ideia de moderação, um meio termo entre duas propostas distintas. Os adeptos da terceira via costumam argumentar que reúnem o melhor de cada ideia, aglutinam o melhor de cada proposta numa terceira que conteria apenas as vantagens das propostas anteriores, e eliminaria suas desvantagens.

Um exemplo típico de terceira via é querer aglutinar as vantagens do capitalismo e do socialismo numa mesma proposta. Quando era aluno do direito vários de meus professores mostravam uma teoria, e depois uma teoria alternativa, e então concluíam que a terceira via juntava o lado bom das outras duas, mas sem nenhuma das desvantagens das anteriores.

Como fã de Star Trek, lembro de um episódio chamado "O Melhor de Dois Mundos". Nesse episódio os humanos encontram os Borgs, raça que muitos podem qualificar como os comunistas espaciais. O episódio mostra que a terceira via simplesmente não é possível, pois a individualidade humana não pode ser preservada na coletividade Borg, e vice-versa.

Quando estruturamos uma ideia, partimos de determinados princípios. Ao desenvolvermos os princípios chegamos a determinadas conclusões, e essas conclusões possuem pontos positivos e negativos. O que algumas pessoas gostam de fazer é juntar o resultado de ideias distintas, mas querem alterar diretamente a conclusão (sem alterar os princípios). Ora isso é simplesmente incorreto, a conclusão (o resultado) é o resultado dos princípios, alterar a conclusão sem antes alterar os princípios é um claro erro lógico (assumindo que erros lógicos não tivessem sido cometidos antes).

Nosso mundo não é o paraíso, toda ideia terá coisas boas e ruins associadas a ela. A ideia liberal é maravilhosa, mas é evidente que possui limitações. Contudo, acreditar que é possível alterar apenas as conclusões de uma teoria, sem antes alterar seus pressupostos, é um erro grave. A força do liberalismo reside na propriedade privada, na liberdade e responsabilidade individual, e num sistema de preços via mercado. Esses são os pilares do liberalismo, você só pode mudar o resultado desse sistema alterando seus pilares. Acreditar que é possível alterar apenas os resultados do liberalismo sem alterar seus pilares é logicamente absurdo. Contudo, alterar os pilares do liberalismo é equivalente a destruir a ideia liberal.

Outro exemplo recorrente são pessoas querendo alterar questões específicas da Igreja Católica sem se atentarem para os pilares da Igreja. Veja a questão do divórcio, muitos reclamam que a Igreja Católica não aceita o divórcio. Contudo, essas mesmas pessoas se esquecem de que num casamento católico é feito um juramente a Deus, é feita uma afirmação de que aquilo que Deus uniu o homem não pode separar. Como conciliar isso com a ideia do divórcio? Certamente, não dá pra dizer: "os tempos são outros então a Igreja tem que aceitar". A doutrina católica não funciona assim. Hoje existem vários teólogos tentando construir uma ponte, uma maneira de reconciliar indivíduos que se divorciaram - e agora estão numa nova relação - com a Igreja. Mas essa é uma tarefa árdua, e difícil de ser realizada sem alterar profundamente outros dogmas da Igreja.

Para finalizar, geralmente a ideia de uma terceira via (unindo o melhor de duas ideias opostas) é um discurso vazio. É a maneira de não se comprometer e de passar a impressão de uma pessoa moderada. A terceira via costuma ser a via expressa para o pior de dois mundos. Pra ser justo com o leitor, vale ressaltar que vários outros autores já chegaram a essa conclusão.

domingo, 3 de setembro de 2017

Os Ultra Thunder Mega Super Double Radicais de Extrema Direita!


Já notaram que quando a imprensa se refere a um conservador, ou a um liberal, ela nunca usa termos como: conservador, liberal, centro-direita, ou direita. Para eles sempre somos: ultra liberais, ultra conservadores, radicais de extrema direita, extrema direita, ou assemelhados.

Por outro lado nunca ouvi o termo radical de esquerda na imprensa, nem mesmo quando falam do PSOL. Nunca ouvi o termo "radical" ou "extrema" ser aplicado a qualquer político ou personalidade de esquerda.

Por que será? Por que será que querem taxar qualquer liberal ou conservador de extremista? Por que toda vez que você defende ideias de direita é classificado pela imprensa como um radical?

Esse tipo de manobra tenta nos desqualificar no debate, tenta nos destruir antes mesmo de darmos nossa opinião. Por outro lado, a complacência com grupos radicais de esquerda (como os black blocs) continua tentando dar roupagem moderada a grupos extremistas de esquerda.

Lembre-se: o PT é um partido de esquerda, o PSDB de centro-esquerda. Ao dividir o mundo entre PT e PSDB a imprensa qualifica qualquer ideia, ou opinião, à direita do PSDB como de extrema direita. Curiosamente não faz o mesmo com partidos que estão a esquerda do PT.

Então já sabe: ano que vem vá se acostumando a ouvir a imprensa chamar conservadores, liberais, e outros moderados de direita como os Ultra Thunder Mega Super Double Radicais de Extrema Direita!

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